Diário do Debatedor #05: Extensão e Whip

As últimas “funções específicas” do debate competitivo são a Extensão e o Whip.

A extensão é o papel exercido pelos 3º membros, tanto de defesa quanto de oposição, e consiste em trazer uma nova perspectiva ao debate. E é bom já deixar claro que uma nova perspectiva é muito diferente de novos argumentos.

Novos argumentos devem ser apresentados por (quase) todos os debatedores.

A ideia por trás da extensão é fazer uma renovação do debate e mostrar como aquele assunto que está sendo discutido influencia vários interesses e setores da sociedade – como saúde, educação, política, economia, diferenças sociais, etc.

Nota-se que, idealmente, a segunda dupla não deve contradizer aquilo que foi dito pela primeira. Contudo, é através da extensão que ela vai demonstrar que é uma dupla independente, com contextos novos e novas visões para o debate.

O whip, por sua vez, é a função exercida pelos 4º membros de defesa e de oposição. Nela, os debatedores irão explicar para a plateia quais foram as ideias apresentadas ao longo do debate e porque as ideias trazidas pelo seu lado (e principalmente pela sua dupla) foram as que mais se sobressaíram quando da discussão.

Vale ressaltar que o whip é mais que um mero relatório do que ocorreu no debate, onde serão apresentados ponto a ponto os argumentos trazidos pelos membros anteriores. Ele é algo mais fluido, mais dinâmico do que isso. A chave para se entender o sentido dessa função é o “confronto de valores”.

Apresentar um relatório de argumentos não é necessariamente errado, mas é um discurso pobre, que vai apenas repetir tudo aquilo que já foi dito. Ou seja, ele não vai efetivamente esclarecer quais foram os pontos centrais daquele debate.

É bom lembrar, também, que esses 4º membros estão proibidos de trazer, por si próprios, linhas argumentativas novas ao debate. Eles devem, sim, responder Pontos de Informação (mesmo que os PI’s sejam sobre algo que não foi trazido anteriormente no debate) e refutar as ideias apresentadas pelos debatedores anteriores, e podem, inclusive, complementar argumentos anteriormente postos pelos companheiros de bancada. Contudo, em todos esses casos, devem ficar atentos ao discursar para garantir que os juízes percebam que os argumentos ali apresentados não são novidades no debate.

Um beijo e até a próxima.

Malu Chan

Anúncios

Simulação das Nações Unidas

Ou Modelos das Nações Unidas, Modelos Universitários, Modelos ou simplesmente Simulações.

65c9e5_059ac3dfe0d44ac599812bbea6e1704c.pngComo o próprio nome já diz, é uma convenção ou encontro onde as pessoas que ali estão simulam uma reunião da ONU ou de algum outro órgão internacional ou até mesmo alguma reunião história, etc. Os delegados ali presentes não representam suas próprias opiniões ou interesses, mas sim as opiniões e interesses do país ou pessoa que estão representando.

Antes de começar a trabalhar com debate competitivo, era nesse tipo de coisa que eu estava envolvida, principalmente durante meu ensino médio.

(Nerd, eu? Imagina!)

Meu primeiro modelo foi uma recriação de um gabinete nazista, onde decidimos pela invasão à França e à Rússia, com alguns saltos de tempo sensacionais durante o evento.

Naquela época, as simulações estavam começando a realmente conquistar o pessoal lá no colégio. Em 2006, o pessoal do meu colégio criou sua simulação interna (chamada de CM Mundi), da qual eu fui diretora e secretária geral em 2009. Além disso, eu participei da organização do evento em 2011 e 2012, mesmo depois de já ter formado.

Em resumo: eu era MUITO viciada nesse negócio. No total, já participei de mais de 15 comitês, em várias posições diferentes.

Uma das coisas que eu mais gostava sobre as simulações era a empatia que ela gerava. É muito difícil você estudar a história e o costume de um país e não entender melhor o seu povo. Elas realmente proporcionam aquela experiência de você se colocar no lugar do outro e descobrir porque ele pensa daquela forma.

Agora, sem nenhuma falsidade, a melhor parte de toda simulação, é claro, são as pérolas. O “nhé” que eu uso muito nos meus vídeos, por exemplo, veio de uma pérola de simulação.

A melhor pérola de simulação que eu já vi, contudo, ocorreu durante a minha primeira Mini-Onu. Nós estávamos discutindo uma das cláusulas do nosso documento final, que tinha um número enorme (algo do tipo 4.3.5.2). Esse era o único problema do documento que ainda faltava para conseguirmos terminar o comitê, mas era uma cláusula muito problemática. Logo ficou cansativo ficar repetindo esse número gigante o tempo todo e alguém propôs que nós nos referíssemos à esta cláusula simplesmente como “cláusula X”. Todos concordamos e, a partir daquele momento, só falamos da “cláusula X”.224173_1694635131858_2318422_n.jpg

Em um determinado momento, um dos delegados termina o seu discurso falando as palavras “cláusula X” (algo como “não vamos poder fazer isso por causa da cláusula X”). No segundo de silêncio que seguiu ao fim do discurso dele, o diretor do comitê solta um “aquela que se misturada com açúcar, tempero e tudo que há de bom, resultará nas meninas superpoderosas” com uma voz muito séria.

Meu comitê explodiu.

A situação foi tão engraçada que demorou uns 15 minutos para que a ordem fosse restabelecida.

E você? Qual foi a pérola mais engraçada que você já ouviu?

Um beijo e até a próxima.

Malu Chan

Diário do Debatedor #04: Moção, definição e desafio

A primeira das questões que se apresenta quando pensamos em debate competitivo é “o que é, exatamente, uma moção?”.

A moção do debate é a forma que os organizadores têm de passar o tema daquela rodada aos debatedores que ali estão participando. Como estamos falando de competições que, em geral, são baseadas em discussões que ocorrem num Congresso, a moção do debate pode ser definida como “um tópico parlamentar para ser discutido em assembleia”.

Existem dois tipos de moções usados nos debates competitivos:

  1. Moções propositivas – remetem a uma ação que aquela casa parlamentar deverá implementar. Elas aparecem na forma de “Esta casa vai fazer / implementar / aplicar alguma coisa”. Como se referem a uma ação, elas exigem que o debatedor elabore uma proposta prática sobre o tema (“como” aquela ação será implementada na realidade).
  2. Moções principiológicas ou valorativas – buscam um debate que seja mais filosófico, moral, valorativo. Seu modelo principal é “Esta casa acredita em algo / discorda de alguma coisa”. São debates que envolvem uma discussão de “certo ou errado”.

Após a apresentação da moção, é função do 1º Membro da Defesa realizar a definição do debate.

A definição ela dá a direção (dentro do tema delimitado pela moção) que o debate deve seguir. Ela deve: dar significado a quaisquer termos da moção que precisem ser esclarecidos, demonstrar os problemas e a relevância daquele debate e, para moções propositivas, apresentar a proposta que os debatedores tem para resolver aquele problema.

Uma boa definição responde as seguintes perguntas:

  1. O que exatamente estamos debatendo?
  2. Por que estamos debatendo?
  3. Qual a importância desse debate para a audiência?
  4. Como vamos resolver o problema? (para moções propositivas)

É preciso observar que a definição pode, sim, restringir o debate, desde que não o faça de má-fé – ou seja, de uma forma que viole as regras e que impeça quase que totalmente o andamento de debate. Definições que violam as regras são conhecidas como não-razoáveis e podem ocorrer em três situações:

  1. Quando há uma limitação espacial ou temporal que não se espera que os debatedores tenham conhecimento sobre ela. Exemplo: quando uma moção é apresentada no Campeonato Mineiro de Debates e versa sobre algo que está ocorrendo no tempo presente, mas a definição limita o escopo daquele debate ao Nepal ou ao século XVII.
  2. Quando a definição não possui ligação clara e lógica com a moção. Exemplo: a moção é “Esta casa legalizaria o aborto” e a definição limita aborto como sendo apenas o uso de pílula do dia seguinte. No nosso ordenamento jurídico, pílula do dia seguinte não é um método abortivo e já é permitido. Discutir sua permissão dentro da moção apresentada, portanto, não possui nenhuma lógica com o tema do aborto.
  3. Quando a definição for auto-evidente – ou seja, quando ela se remeter ou referir a algo que é completamente impossível de ser refutado ou discutido. Em geral, são definições que se remetem a Deus, alma ou qualquer outra circunstância que não possa ser provada.

Quando a definição é não-razoável, ela pode ser desafiada pelos próximos debatedores. Eu explico melhor como funciona a ordem de desafio à definição no vídeo abaixo, mas, como regra geral, quem pode desafiar é o 1º membro da próxima dupla a discursar.

O procedimento para o desafio é bem simples: quando o debatedor for reconhecido pelo juiz, ele deve fazer o desafio logo no início do seu discurso, dizendo que quer desafiar a definição e explicando brevemente, com base em um dos critérios de não razoabilidade, o porquê do desafio. É bom ficar claro que o debatedor que desafia está perdendo tempo de discurso, por isso o desafio dele deve ser bem rápido.

Após a explicação, o presidente da mesa vai parar o tempo e os juízes vão decidir (secretamente) se aceitam ou não o desafio apresentado. Outra coisa importante: os juízes decidem sobre o desafio, e não sobre a definição. Os juízes podem (ou melhor, devem) rejeitar um desafio a uma definição não razoável, se a justificativa para o desafio estiver errada.

Se o desafio for aceito, o debatedor que desafiou deve apresentar uma noção definição e é ela que valerá para o debate a partir daquele momento.

O debatedor, contudo, não terá seu tempo “de volta”, em nenhuma circunstância. Aceito ou não o desafio, o tempo será retomado de onde ele parou.

Para finalizar, eu acho que vale destacar que os juízes não podem aceitar o desafio contra uma definição “ruim” ou contra uma definição que está levando o debate para um rumo inesperado. As hipóteses de não-razoabilidade das definições são bem estritas e devem ser observadas tanto por debatedores quanto juízes.

Um beijo e até a próxima.

Malu Chan

Diário do Debatedor #03: Parlibrasil – o modelo

14257761_628216880672457_4109542272933930802_o.jpgO texto de hoje visa introduzir, de uma forma sucinta, o modelo de debates adotado pelo IBD nas suas competições.

O tema do debate é apresentado aos debatedores 15 minutos antes do debate, através de uma moção – ou seja, de um tópico parlamentar que deve ser discutido em assembleia.

Assim como os demais modelos baseados no British Parliamentary, no ParliBrasil as rodadas são disputadas entre quatro duplas. Duas duplas são sorteadas para serem favoráveis à moção – são as chamadas duplas de defesa. Duas duplas são sorteadas para serem contrárias à moção – são as duplas de oposição. Ou seja, os debatedores não defendem opiniões pessoais durante o debate, mas sim o “lado” no qual foram sorteados.

Após o sorteio da moção/duplas, os debatedores têm 15 minutos para se preparar para os seus discursos.

Cada discurso possui duração máxima de 7 minutos. Durante o discurso de cada debatedor, o presidente de mesa irá realizar até 4 sinais sonoros (com um martelo ou sineta) distintos: 1) uma única batida, ao fim do 1º minuto, indicando que está aberto o tempo para requerimento de pontos de informação; 2) uma única batida, no início do 7º minuto, indicando o fim do tempo para requerimento de pontos de informação; 3) uma batida dupla, indicando que os 7 minutos de discurso acabaram; 4) batidas ininterruptas, a partir de 7 minutos e 15 segundos até que o debatedor se cale.

Como é possível perceber, o debatedor, após os 7 minutos de discurso, ainda possui 15 segundos de tolerância para terminar o que estava dizendo. Contudo, a partir de 7:15, tudo que ele disser será desconsiderado para o debate e ele irá perder pontos durante a adjudicação.

O debate possui uma ordem específica de discursos a ser seguida, dependendo do sorteio das duplas, e que pode ser resumida no seguinte quadro:

 

Discurso Pessoa Dupla
1º Membro da Defesa 1ª Dupla de Defesa
1º Membro da Oposição 1ª Dupla de Oposição
2º Membro da Defesa 1ª Dupla de Defesa
2º Membro da Oposição 1ª Dupla de Oposição
3º Membro da Defesa 2ª Dupla de Defesa
3º Membro da Oposição 2ª Dupla de Oposição
4º Membro da Defesa 2ª Dupla de Defesa
4º Membro da Oposição 2ª Dupla de Oposição

 

É preciso lembrar, ainda, que alguns debatedores possuem funções específicas a serem realizadas no debate, a saber: 1) o 1º Membro da Defesa é o responsável por fazer a Definição (explicar os termos da moção e delimitar o debate); 2) os 3º Membros (tanto de Defesa quanto de Oposição) devem fazer a Extensão (apresentar uma nova perspectiva à matéria); e 3) os 4º Membros (tanto de Defesa quanto de Oposição) devem fazer os Whips (concluir o debate e mostrar porque o seu lado “ganhou”). Tenham em mente que, nos próximos textos, eu explicarei cada um desses papéis com maior profundidade.

Depois do último discurso, os juízes se reúnem para fazer a avaliação do debate e decidir o vencedor. As posições são, então, divulgadas para os debatedores.

Uma última coisa que é preciso que os competidores saibam: os juízes não possuem autorização de intervir durante a rodada. Eles não esclarecem dúvidas (sobre regras ou temas), não proíbem os debatedores de fazer nada durante os discursos – mas tudo é devidamente anotado para ser ponderado durante a avaliação. É função dos debatedores saber as regras, entender as moções e ser cordiais com seus competidores.

Um beijo e até a próxima.

Malu Chan

Diário do Debatedor #02: Formatos de Debate

O debate competitivo é uma prática adotada em diversos países do mundo, o que faz com que nós tenhamos um número gigantesco de modelos de debate diferentes, cada qual com a sua especificidade. Eu separei aqui, então, alguns dos formatos de debate mais comuns (ou mais legais) que eu achei por aí para mostrar para vocês.

(E se quiserem saber mais sobre isso, podem olhar aqui e aqui.)

1) Lincoln-Douglas: Muito utilizado em escolas secundárias americanas, é baseado na série de debates ocorridos entre os candidatos a Senador Abraham Lincoln e Stephen Douglas em 1858. É um modelo simples, que coloca um debatedor contra o outro, discutindo aspectos mais morais e filosóficos das moções apresentadas. O objetivo primordial é que o debatedor apresente uma linha de defesa baseada na moral e na filosofia que seja coerente, que não tenha furos óbvios e seja difícil de ser rebatida.

2) Karl-Popper: Mais famoso da Europa Central, Leste Europeu e alguns países da região central da África, o modelo opõe dois times de 3 debatedores em cada lado. Existe um momento, durante o debate, para o chamado Cross Examination – alguns debatedores de um lado podem fazer perguntas para o lado oposto.

3) Australasia: Também opõe dois times de 3 pessoas, mas aqui, cada um dos debatedores possui uma função a cumprir no seu discurso. É aplicado principalmente em escolas secundárias da Austália, Nova Zelândia e alguns países da Ásia.

4) Oxford-Style: É o modelo utilizado nos debates dentro da Oxford Union (sociedade de debates da Universidade de Oxford). Também é um debate “one-on-one”, ou seja, um debatedor de cada lado da discussão. Aqui, a plateia tem um papel decisivo na hora de indicar o vencedor: a audiência realiza uma votação sobre o tema (a favor, contra ou sem opinião) ANTES do debate; o debate é realizado e cada debatedor apresenta uma fala inicial de 7 minutos, há momento para perguntas da plateia, e, após, fazem um encerramento de 2 minutos cada; no final, a plateia deve votar NOVAMENTE (a favor, contra ou sem opinião). Vence o debatedor que conseguiu fazer com que uma porcentagem maior das pessoas “mudassem de lado”.

5) Paris-Style: Modelo de debates que opõe 2 times, cada um com 5 participantes. Cada um dos debatedores fala por 6 minutos, uma vez, e é permitido fazer perguntas para aquele que está discursando através dos Pontos de Informação (que o debatedor por ou não aceitar).

6) Parliamentary: É o modelo de debates mais utilizado no mundo (principalmente na sua versão British Parliamentary), sendo o escolhido para as competições do Mundial de Debates (WUDC) e do Campeonato Brasileiro de Debates (organizado pelo IBD). São 4 duplas, 2 de cada lado da moção, que só é anunciada 15 minutos antes do debate começar. Cada debatedor discursa por 7 minutos e as interações entre eles também são feitas por meio dos Pontos de Informação. É um modelo de debate bastante focado no “Legislativo” e como esse poder se comportaria diante de tal tema.

Agora é só decidir qual modelo de debate mais se encaixa no perfil da sua sociedade de debates e começar a debater!

Um beijo e até a próxima.

Malu Chan

Diário do Debatedor #01: O que é Debate Competitivo?

“Debate é uma técnica comunicativa baseada na confrontação de posições através de argumentos e evidências”Liga Colombiana de Debate.

freeimage-1921198O debate como conhecemos hoje surgiu na Grécia, com as assembleias atenienses. Naquela época, as decisões que envolviam a cidade eram tomadas por todos os seus cidadãos, que se reuniam na acrópole e deliberam as questões através de votações simples. Antes das votações, contudo, aqueles interessados em falar contra ou a favor da proposta eram convidados a se pronunciar. O objetivo, portanto, era convencer os demais de que o seu lado era o “certo” de se votar.

Juntamente com a humanidade, esse debate político também evoluiu e é claro que alguém transformou isso em uma competição – porque não, não é mesmo?

No debate competitivo nós temos pessoas, duplas ou times que são colocados (em geral por sorteio ou algum método aleatório assim) contra ou a favor de uma moção ou proposição. Essas pessoas, duplas ou times precisam, então, apresentar argumentos que suportem o seu lado da competição, bem como refutar os argumentos apresentados pelo outro lado, sempre lembrando de cumprir seus papéis e seguir as regras do modelo.

Os debatedores serão julgados por uma banca que decidirá o “vencedor” daquela rodada com base em uma série de critérios – solidez dos argumentos, capacidade de convencimento, quantidade de argumentos, referências, oratória, empatia, jogo de dupla/time, etc. Os critérios que “mais pesam” vão depender do modelo e da competição que o debatedor está participando.

Vale lembrar que existem vários modelos de debates pelo mundo, cada um com suas regras, seus objetivos e seu número de participantes. No próximo post eu vou falar mais um pouco sobre esses modelos com vocês.

Um beijo e até a próxima.

Malu Chan